Você aceita um sonho de presente?

Nós fugimos por aquela porta grande e de maçanetas antigas antes da última dança. Quem fica para a última dança? Desde quando nós precisamos de uma última canção para nos embalar?

A nossa música vive nos nossos ouvidos e pensamentos incessantemente. Entre corpos que se batiam nos passos de dança - uns já bêbados, outros muito exibidos - você me puxava pela mão com pressa e afobamento, queria mostrar alguma coisa, dizer um monte de coisa, tudo junto e ainda correndo. Quem passava pela rua já naquela hora da madrugada e nos via tão sorridentes e com tanta pressa nos pés, não há de entender que nós vivemos de ter pressa mesmo que a minha voz insista em te amansar. Vivemos correndo ainda que parados, meu amor. E lá íamos nós, você me puxando, eu reclamando e sorrindo sem te deixar ver.

Ouvíamos ainda a música tocando lá ao longe. Ficaram por lá os casais que dançam ensaiado e se vão conforme a música se vai. Dançam a última dança os mesmos que não sonham os últimos sonhos e não correm os constantes delírios. Por isso, dançamos a noite toda e adentramos a madrugada na nossa dança exclusiva, aquela onde você me olha, eu desvio o olhar, você segue me olhando e eu há muito já me deixei levar.

Você parou de me arrastar pela mão ao chegarmos na sua esquina favorita. Eu ri, você não fala, mas tem dessas coisas românticas. Quem te adivinharia assim? Por trás dos olhos, sen-ti-men-tal! Falou demais, misturou sentimentos e momentos, reafirmou amor e paixão, contou mais uma história de infância que explica a solidão de antes da minha chegada e falou da dor de cada partida. Numa bela atrapalhação de si, explicou-se amante. Confessou-se amante.

Já distante o baile seguia. Ninguém sabe quantos casais perduram ou quantas moças escondem-se no banheiro a chorar. Contabilizam-se as bebidas, comidas e estragos, mas não contabilizam os corações partidos. Não viram a nossa fuga e nem souberam do nosso desespero de amar. Não é de hoje, sinto que nem eu vivi o tempo do nosso começo. É possível o amor nascer primeiro do que nós?

Um beijo, que nunca é apenas "mais um". Logo mais nos despedimos e consentimos em silêncio que a dor e a alegria são irmãs.

(Acordei)

Aqui dentro te aguardam bailes intermináveis.

Vivemos de um intenso "até logo" suspenso no ar... A música nunca mais parou de tocar.

Compartilhar no Google Plus

Autor: Camila Costa

Dizem que "essa guria tem uma caneta no lugar do coração". É gaúcha, jornalista e quase adulta com 23 anos. Um dia chega lá.
    Blogger Comment
    Facebook Comment

2 comentários:

  1. vindos de Cah, todos os sonhos! Bela música.
    Um beijo

    ResponderExcluir
  2. Ei-la, 'A arte de perder o amor' em outras palavras; as suas...

    ResponderExcluir